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outubro 28, 2021
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ARTIGO: “A democracia e seus riscos”, por Leonardo Mota

* Por Leonardo Mota

Vivemos um tempo em que a democracia no Brasil corre riscos, apesar da aparente normalidade, com os brasileiros se dedicando às suas atividades diárias, gastando seu tempo entre idas e vindas em transportes públicos ou fazendo compras de alimentos. Onde está o risco?

Vale a pena destacar duas mudanças que vão desgastando os capítulos pétreos da nossa Constituição, agredidos dia sim ou dia não por decisões tomadas num dos três poderes da República. São sintomas de uma aparente neutralidade que vai corroendo pilares democráticos que não chegaram a ser consolidados. O primeiro deles é o pilar do respeito às leis.

No afã de combater o governo do presidente Bolsonaro, e com o empenho de boa parte dos órgãos de imprensa, regras vão sendo demolidas, mentiras vão se transformando em narrativas naturalizadas, e, mais grave, crimes vão sendo permitidos e aceitos como novas normas. O desrespeito às leis vai trazendo de volta os tempos da corrupção.

A volta da corrupção
Foram seis longos anos em que o combate à corrupção no Brasil colocou na prisão empresários, doleiros, políticos, acusados de desvios de dinheiro público, pagamentos de propinas em obras por todo o país e no exterior. As vítimas foram as empresas públicas, como a Petrobrás. O brasileiro havia se acostumado a ver no noticiário da TV prisões de gente de colarinho branco, cerco a políticos com malas de dinheiro, delações premiadas de políticos e empresários se acusando mutuamente.

Estas cenas foram saindo do noticiário aos poucos. O crime desceu de degrau. Hoje, crimes menores ou crimes de tráfico de droga substituíram os personagens presos. As prisões foram relaxadas por ações de ministros do Supremo Tribunal Federal, que aboliu a prisão em segunda instância. O dinheiro desviado e recuperado pelo trabalho dos investigadores do Ministério Público – cerca de 5 bilhões de dólares – está agora ameaçado de ser devolvido aos criminosos.

Os inquéritos realizados pelos procuradores da Operação Lava Jato, do Paraná, foram transferidos para tribunais de São Paulo e Brasília, e lá dormem agora. Os hackers contratados pelos bandidos criaram uma narrativa falsa e enredaram o ex-juiz Sérgio Moro e seus procuradores, que enfrentam inquéritos. O ex-presidente Lula, que cumpriu um ano de prisão, foi absolvido pelo Supremo.

Para o brasileiro comum, que está vendo ruir seu sonho de um país mais justo e respeitoso, a sombra do passado, com sua carga de corrupção, está mais ameaçadora. O país dos nossos sonhos, de respeito ao bem comum, corre o risco de ver desabar o pilar da justiça igual para todos.

Outro pilar: a liberdade
Se a justiça deixa de ser igual para todos, o que dizer da liberdade de expressão? Deputados, presidente de partido político, caminhoneiros, jornalistas, gente comum, muitos têm sido perseguidos por expressarem críticas a um dos poderes da República. As passeatas do dia da pátria, o Sete de Setembro, foram censuradas por parte da imprensa, que considerou os atos como antidemocráticos, embora apenas bandeiras brasileiras, e não armas, tenham sido levadas às ruas.

O ódio político, que promove a rivalidade entre os brasileiros, está fazendo ruir o respeito ao próximo, a fraternidade entre irmãos, expandindo o sentimento de desrespeito para além da política, do esporte, dos vizinhos.

Parentes que não se falam, políticos que se agridem em comissões de inquéritos, desrespeito ao presidente da República, agredido até em terras estrangeiras, jornalistas que mentem ou inventam fatos, lentamente vai ruindo o pilar da democracia em nosso país, onde os extremistas não percebem que agem como velhos ranzinzas.

A volta da corrupção e o ódio político vão minando a democracia, que tem como lema máximo o viver e o deixar viver, colocando o bem comum acima das desavenças. Este é o panorama que vai se desenhando para 2022, em que festejaremos dois séculos de independência. Que sejamos adultos para agradecermos juntos a pátria que temos.

* Leonardo Mota é jornalista e consultor de comunicação

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