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dezembro 7, 2021
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ARTIGO: “A Urgência da Vida”, por Leonardo Mota

* Por Leonardo Mota

Nesta última semana de COP26, quando se discutem mudanças climáticas e soluções, as ruas de Glasgow se encheram de multidões de jovens e manifestantes de diversas partes do mundo, mais barulhentos do que as gaitas escocesas. Debaixo de chuva e frio, as pessoas seguravam cartazes encharcados onde se exigia “coloquem o planeta na frente do dinheiro agora”.

Nas ruas ficava visível a urgência dos que querem mudanças já não para máquinas ou automóveis, mas para resolver um problema mais sério do que as emissões de gás carbônico: o número de pessoas que estão morrendo de fome no planeta e que buscam socorro em países vizinhos. Este é um problema de milhares de haitianos, nicaraguenses e habitantes da América Central que tentam asilo no México e nos Estados Unidos, escorraçados pelas
polícias locais. É um problema dos africanos que tentam atravessar o Mediterrâneo com a esperança de serem recebidos em algum país europeu. E é um problema para os moradores de Bielorus, que invadem a Polônia sofrendo de frio e de fome sem ajuda. Fome e clima: por que?

Em setembro, o Banco Mundial alertou que 216 milhões de pessoas em seis regiões do mundo – incluindo cerca de 50 milhões de pessoas do Leste Asiático e do Pacífico – poderão ser forçadas a se mudarem de seus países até 2050 para fugirem de eventos climáticos adversos. Que eventos são estes? Queimadas, enchentes, destruição do meio ambiente, degradação de plantios, destruição de lavouras. Falta de alimento.

Nas ilhas do Pacífico, a expectativa é que essas ilhas sejam engolidas pelo oceano Pacífico em 10 ou 15 anos. Um ministro da ilha de Tuvalu, Simon Kofe, chamou atenção ao discursar em vídeo exibido na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26) de terno e gravata, mas dentro do mar e com água até o joelho. A ilha, no meio do Oceano Pacifico corre o risco de desaparecer nas próximas décadas devido ao aumento do nível do mar causado pelo aquecimento global.

Os compromissos de redução das emissões para 2030, com os quais os países chegaram à COP26, deixam a Terra a caminho de um aquecimento de +2,7ºC até o final do século, alertam os especialistas. O Oriente Médio está aquecendo em um ritmo duas vezes mais rápido que a média mundial. Um dos países da região, o Kuwait, foi o lugar mais quente da Terra em julho de 2021, com temperaturas acima dos 53ºC.

Um sonho perdido

No começo do século 20 todos os seres vivos sonhavam com a modernidade, uma época de realizações, de novas invenções como o automóvel ou o trem, de novos remédios. A economia se tornou global. Os computadores surgiram como a nova maravilha do século, como máquinas capazes de substituir os seres humanos em rapidez e criatividade.

O sonho de um futuro sustentável defendia que bastava deixar o futuro para a tecnologia, em seu caminho interminável de controle do clima e da economia. Alguns cientistas alertavam para incertezas, mas os economistas garantiam que tinham o domínio do mundo nas mãos. Tudo se tornava global e todos os países se alinhavam ao crescimento econômico, tanto no sistema de comunicação como no sistema bancário. Surgiram as bolsas de
valores regulando o crescimento de cada país e suas empresas. Explodiram as duas grandes guerras e a destruição em massa. Criou-se a bomba atômica, capaz de varrer cidades inteiras. A revolução marxista foi implantada na Rússia para se opor ao mundo capitalista e se seguiu a guerra fria. O sonho de poder se desmoronou com a queda do Muro de Berlim. Em todo o mundo as cidades cresciam com suas chaminés espalhando fumaça da queima
do carvão.

Chegamos ao século 21 desiludidos das promessas da modernidade. Passamos a viver no que se chamou de pós-modernidade, uma era tão caótica quanto incerta. As guerras e os exércitos não conseguiram construir a paz. E as mudanças climáticas se instalaram com sua linguagem caótica e assustadora. Esta é a realidade em que se realiza a COP26, com os representantes de cerca de 200 países fazendo promessas de controlar as catástrofes, diminuir o efeito estufa, evitar as queimadas.

Para os jovens que ocupam as ruas de Glasgow, não há mais tempo para sonhos sustentáveis. “O que nós queremos? Justiça climática! Quando queremos? Agora!”;, gritaram os ativistas. É uma urgência que não se limita à capital da Escócia. Novas marchas estão previstas para diversos países. Os problemas dos seres humanos e do planeta onde habitam estão provocando um novo despertar. Sem ilusões, mas com a esperança da sobrevivência.

* Leonardo Mota é jornalista e consultor de comunicação

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