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outubro 28, 2021
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ARTIGO: “Factoide: a mentira que manipula os fatos”, por Leonardo Mota

* Por Leonardo Mota

O procurador geral da República, Augusto Aras, recentemente trouxe ao debate político atual a palavra factoide, que já esteve em moda no Brasil há pelo menos 30 anos. Nos dicionários de português, a palavra aparece como uma afirmação falsa ou sem comprovação que é muito repetida ou divulgada pela imprensa para passar por verdade. Hoje, os factoides têm sido substituídos pela expressão inglesa fake news.

A palavra factóide (do inglês factoid) foi cunhada pelo escritor norte-americano Norman Mailer em sua biografia escrita em 1973. Mailer criou a palavra para significar “algo semelhante, mas que não é o mesmo”. A prática jornalística não usa factoides, ou não deveria usar. Jornalismo é uma atividade que produz notícias sobre acontecimentos, narrados pelo repórter a partir da presença in loco e de testemunhos que são um importante procedimento investigativo do repórter. Quando o resultado da busca de informações é substituído por uma narrativa sem fundamento temos um factoide, algo que não aconteceu.

Factoide histórico

Por 15 anos, um artigo publicado pela Wikipedia construiu um factoide dando conta da existência de um campo nazista de extermínio em Varsóvia, capital da Polônia. A informação, publicada em inglês, foi traduzida em doze línguas e foi lida por pelo menos meio milhão de pessoas só em sua versão inglesa. Além do artigo central, artigos relacionados, como “Crimes nazistas contra a nação polonesa”, sustentaram a versão original da notícia, que foi publicada em agosto de 2004 e só em agosto de 2019, foi reescrita.

A versão original da fake news foi considerada pelo professor Jan Grabowski, um polonês-canadense da Universidade de Ottawa, como parte de uma teoria conspiratória destinada a criar uma versão falsa do holocausto na Polônia. Diversos historiadores especializados em informações sobre o holocausto e sobre campos de concentração criados pelas tropas de Hitler reforçam como fantasiosa a versão da Wikipedia. “É história fake”, afirma o professor Havi Dreifuss, um historiador da Universidade de Tel Aviv, e especialista sobre o Holocausto na Polônia, quando perguntado sobre as câmaras de gás naquele país. Outros especialistas em levantamento de dados sobre o Holocausto confirmam a mentira.

Um editor israelense, que se identifica como Icewhiz e se recusa a se identificar pelo seu nome verdadeiro, foi a pessoa que primeiro percebeu a fake news e o nível de distorção da realidade que ela criou. Em entrevista ao jornal Haaretz, o editor relatou que a primeira notícia falsa foi como uma ponta de um iceberg, pelo número de artigos relacionados à falsidade. Ele atribuiu a mentira a um esforço sistemático de nacionalistas poloneses para falsificar centenas de artigos da Wikipedia sobre o holocausto na Polônia.

Na narrativa falsa, os poloneses em geral, e não apenas a população judaica do país, teriam sido as vítimas principais da ocupação nazista. Esta linha de argumentação tenta apagar pesquisas que mostram casos de cooperação e colaboração dos poloneses com os nazistas para a perseguição dos judeus. O esforço de reescrever a história do holocausto na Polônia pela Wikipedia acrescentou distorções históricas em torno do número de mortes ocorridas no chamado Polocausto, um termo que ganhou popularidade em anos recentes no país, por aumentar o número de poloneses mortos em em detrimento das mortes de judeus.

A Wikipedia afirma, em seu favor, que exercita uma ‘verificabilidade’ das informações recebidas. E atribui o engano a fontes de países onde se fala uma língua não internacional, como o polonês. Por isso, uma mentira sobre um campo de concentração que não existiu foi infiltrada até mesmo nas versões em inglês da enciclopédia. A primeira mentira originou artigos falsos posteriores afirmando que 200 mil pessoas teriam sido assassinadas no referido campo. E durou quinze anos para ser desmentida.

Factoides políticos

Factoides políticos são criatividades narrativas destinadas a atingir a honra ou levantar suspeitas sobre o comportamento de adversários políticos. É uma prática que não está ainda banida de todo pelas sociedades democráticas em
geral. Na Inglaterra, alguns tabloides se especializam em produzir escândalos sobre a família real, em geral sem fundamentos. Com perdão da rima, são tabloides de factoides.

No Brasil, as fake news chegam a um nível de insanidade que toma conta do debate político numa expressão de ódio que vai muito além da simples oposição ao adversário. E acaba por contaminar a atividade jornalística, que deveria viver da realidade dos fatos. Jornais que têm uma história e um nome a zelar escorregam na prática da mentira. Usar factóides na prática jornalística é implodir a própria prática. Significa a própria desmoralização da imprensa, num caminho sem volta para sua destruição.

O abuso de fake news leva o leitor a desconfiar do que lê não apenas em redes sociais, mas em jornais tradicionais. Recentemente, a mídia tradicional insistiu em afirmar que apenas 120 mil pessoas haviam comparecido à Avenida
Paulista no dia 7 de setembro, uma data cívica. Mas as imagens apresentadas pelos canais de TV mostravam a avenida inteira tomada por gente, indicando um número bem maior de presentes. A informação foi creditada à Polícia
Militar, mas não foi confirmada. E todos perceberam o uso político da informação.

* Leonardo Mota é jornalista e consultor de comunicação

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