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outubro 28, 2021
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ARTIGO: “Imprensa política, ou agressão à democracia?”, Por Leonardo Mota

* Por Leonardo Mota 

No último sete de setembro, os noticiários da imprensa tradicional agrediram os brasileiros que se manifestavam nas ruas a favor do governo chamando-os de militantes de atos antidemocráticos. Apesar de irem aos milhares às ruas das principais capitais do Brasil, as notícias da imprensa política reduziram as manifestações a meras 120 mil pessoas.

O que levou estes órgãos de comunicação a deturpar a verdade, classificando a ida às ruas como um ato antidemocrático? Além de mentirem sobre o número expressivo de manifestantes, jornais como Folha de São Paulo e empresas do grupo Globo adotaram uma posição política classificando o ato como uma agressão à democracia. Como classificar as mentiras? Puro ódio político ou evidente fakenews?

Unesco: o direito à verdade

A Unesco é uma agência das Nações Unidas com mandato específico para a promoção da liberdade de expressão e da Liberdade de Imprensa. Para a UNESCO, o direito a uma informação livre e verdadeira é crucial para a democracia e o diálogo, assim como pré-condição para a proteção e a promoção de todos os outros direitos humanos. A agência defende legislações sobre liberdade de informação e um marco de ação que possibilite a liberdade de expressão na internet.

Se as redes sociais nem sempre cumprem a legislação de imprensa, o que dizer de empresas jornalísticas que assumem uma versão politizada como padrão noticioso? Diversos pesquisadores em Comunicação têm constatado esta politização. Ao estudar o papel predominante da mídia e sua interação com a crise de legitimidade política, o historiador espanhol Manuel Castells observa que a política tem migrado para o que ele chama de ‘media politics’, que considera ser agora o principal canal de comunicação entre o sistema político e os cidadãos, em particular pelas redes televisivas.

“Até recentemente, e mesmo em nossos dias, a mídia constitui um sistema articulado no qual, em geral, a imprensa escrita produz informação original, a televisão difunde esta informação para audiência de massa e o rádio favorece a interação. Com isso, a política se tornou uma política mediatizada. O sistema político se coloca na cena midiática para obter apoio, ou ao menos, para diminuir a hostilidade dos cidadãos que se tornaram consumidores do mercado político”. (CASTELLS, 2007: 240).

A pressão do mercado

Outro pesquisador que tem criticado a mídia tradicional é o linguista Noam Chomsky, falecido em 2020. Seus inúmeros textos atribuem ao capitalismo as posições políticas dos noticiários de jornais e emissoras de televisão. Em A Manipulação do Público, livro escrito em conjunto por Edward Herman e Noam Chomsky, os autores explicam a existência de um viés sistêmico dos meios de comunicação em termos de causas econômicas e estruturais e não como fruto de uma eventual conspiração criada por algumas pessoas ou grupos de pessoas contra a sociedade.

Em resumo, o modelo mostra que esse viés deriva da existência de cinco filtros que todas as notícias precisam ultrapassar antes de serem publicadas e que, combinados, distorcem sistematicamente a cobertura das notícias pelos meios de comunicação.

1. O primeiro filtro – o da propriedade dos meios de comunicação – deriva do fato de que a maioria dos principais meios de comunicação pertencem às grandes empresas.

2. O segundo – o do financiamento – deriva do fato dos principais meios de comunicação obterem a maior parte de sua receita não de seus leitores, mas sim de publicidade (que, claro, é paga pelas grandes empresas). Como os meios de comunicação são, na verdade, empresas orientadas para o lucro, o modelo de Herman e Chomsky prevê que se deve esperar a publicação apenas de notícias que reflitam os desejos, as expectativas e os valores dessas empresas.

3. O terceiro filtro é o fato de que os meios de comunicação dependem fortemente das grandes empresas e das instituições governamentais como fonte de informações para a maior parte das notícias. Isto também cria um viés sistêmico contra a sociedade.

4. O quarto filtro é a crítica realizada por vários grupos de pressão que procuram as empresas de comunicação para pressioná-las caso eles saiam de uma linha editorial que esses grupos acham a mais correta (isto é, mais de acordo com seus interesses do que de toda a sociedade).

5. As normas da profissão de jornalista, o quinto filtro, referem-se aos conceitos comuns divididos por aqueles que estão na profissão do jornalismo.

De acordo com o modelo dos filtros, fica claro que um conceito tradicional da notícia, o da verdade dos fatos, enfrenta pressões poderosas que mutilam uma narrativa correta. Se isto acontece com notícias comuns, ocorrem sempre quando se trata da notícia política. Foi o que ocorreu com a cobertura das manifestações do Sete de Setembro. Uma mentira flagrada: enquanto as imagens mostravam milhões de pessoas enchendo as ruas,a locutora de plantão
afirmava que eram atos antidemocráticos de cerca de cem mil pessoas.

* Leonardo Mota é jornalista e consultor de comunicação

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