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dezembro 7, 2021
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ARTIGO: “O Brasil e seus contrários”, por Leonardo Mota

* Por Leonardo Mota

Temos observado o aparecimento nas redes sociais de estrangeiros que, ao visitar o Brasil, procuram descobrir o que encontram como diferenças culturais com as práticas em seus próprios países. São pequenos detalhes como gostar de ‘brigadeiro’, um doce tipicamente brasileiro, ou andar de sandálias de dedo pelas ruas do Rio de Janeiro. São esses detalhes que poderíamos chamar de traços culturais e que não só nos aproximam como brasileiros como nos distinguem regionalmente.

Se temos certas práticas diferentes de acordo com a região em que vivemos, ao mesmo tempo conservamos hábitos que nos identificam como brasileiros, a começar pela língua. Este é um critério histórico, criado a partir do descobrimento do país, quando a língua portuguesa foi introduzida no Brasil em confronto ou em contraste com dialetos indígenas tão variados entre si. É pela linguagem e suas narrativas que nos aproximamos ou nos diferenciamos como brasileiros.

Unidade nacional

Somos uma comunidade imaginada, uma expressão criada pelo historiador inglês Benedict Anderson para explicar como, apesar das diferenças, somos capazes de nos unir por meio de histórias, lendas e práticas que compartilhamos e que constituem o que podemos chamar de identidade nacional. São narrativas que nos unem e nos dividem, mas fazem parte deste enorme depósito de construções discursivas sobre nosso país.

Neste trabalho de construir uma nacionalidade, a mídia tem papel importante. As redes de televisão cresceram a partir da construção de retransmissoras locais do norte ao sul do país. Esta grande narrativa nacional incorpora práticas sociais locais. Um exemplo é o campeonato de futebol, exatamente apelidado de ‘brasileirão’, com partidas transmitidas nacionalmente. É o momento em que times, representando estados nordestinos, disputam com times do sul ou do centro oeste. Os astros surgem e são respeitados. Times de São Paulo ou do Rio de Janeiro tentam mostrar superioridade, embora sejam muitas vezes surpreendidos por times locais que se tornam atração nacional, como o Bragantino ou o Chapecoense. Mas todos se unem quando a narrativa envolve a seleção brasileira e seu próximo desafio, a Copa do Mundo de 2022.

Uma construção narrativa importante é a situação única do Brasil, com seus cinco campeonatos mundiais vencidos. O país tem condição de ganhar outra vez? Quem estará na seleção ‘canarinho’, assim carinhosamente batizada? Neymar vai jogar? O Tite vai ser mesmo o técnico? Este é o debate que vai envolver cada um dos 230 milhões de brasileiros a partir de 2022. E que já provoca discussões até na Argentina, que conta com Messi para destronar o Brasil.

A questão política

Outra narrativa que promete esquentar muito em 2022 será a campanha para a eleição presidencial. Este tema já divide muitos brasileiros que, movidos por ódio ou amor, já disputam nas ruas o apoio a seus candidatos. Diferente da campanha esportiva, a questão política desune muito o país e os brasileiros, esquecidos de que formam uma grande comunidade imaginada, com muitos laços em comum.

O apoio ou o ódio é estimulado por narrativas que transcendem o debate puramente político. Perseguições físicas, ameaças de facadas ou de uso de venenos são alguns ingredientes de campanha. Marchas e usos da bandeira nacional também serão usados. Todos se consideram donos da verdade, mesmo que a enfeitem com fake news.

Quanto ao ideário político, são tantos os partidos políticos, cerca de 30, que é difícil criar alguma identidade de ideais. Neste campo, as identidades seguem a tendência desta pós-modernidade, que permite o estreitamento de laços de gênero, idade, classes sociais ou regionais, religiosas, acadêmicas ou outras.

As identidades adquirem significado por meio de formas diferentes de linguagem que as representam. Neste novo universo se incluem as identidades por meios sociais. São as novas narrativas que classificam o mundo atual a partir das relações que estabelecemos. E estes laços também servem para identificar uma identidade política, que leva a pessoa a militar por causas, pessoas, políticos, heróis. No campo da militância política, o ativismo não se desliga de todo dos laços de identidade nacional. O foco passa a ser o destino do país.

Como não é possível mudar a história comum de um povo, suas tradições e suas batalhas, busca-se renovar a narrativa ideológica, trazendo novos ingredientes a uma luta em geral abandonada nos livros de História. A renovação política se desenvolve a partir da troca de nomes históricos. Surgem novos símbolos: o que se chamava democrata passa a ser patriota, o que era socialista passa a ser nacional e vice-versa. Todos iguais e sem
distinção ideológica clara. Alguns acentuam um enredo mais nacionalista, outros preferem o tema trabalhista, mas todos se dizem brasileiros. E neste sentido, tornam seus ideários bem parecidos.

Velhos chavões como “mais escola, mais saúde” voltarão a rechear as narrativas partidárias. Frases nacionalistas acentuam o amor ao Brasil e este enredo, embora velho, reanima o sonho da pátria amada, país do futuro, Brasil de amor eterno seja símbolo. Em torno destes ingredientes, será reativada a grande narrativa nacional, em torno da qual vamos procurar construir um novo país.

* Leonardo Mota é jornalista e consultor de comunicação

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