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dezembro 7, 2021
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ARTIGO: “Suor, medalhas e lágrimas”, por Leonardo Mota

* Por Leonardo Mota

Com a medalha de ouro nas mãos, atentos à espera dos hinos nacionais, quatro atletas olímpicos russos estão chorando. Seu país foi suspenso e, por isso, o hino não pode ser tocado. Resgatando o sentimento pátrio, eles pediram para tocar trecho de um concerto de Tchaikowsky. E assim, naquele ginásio de Tokio, o silêncio foi rompido pelos acordes de um dos compositores mais famosos da Rússia. Quase no mesmo momento, numa praia isolada do Japão, um nadador brasileiro, Ítalo Ferreira, também não consegue parar de chorar ao ganhar o ouro nas provas de surf.

O que explica tamanho fervor pátrio? Porque as medalhas por vitórias esportivas remetem os atletas e seus concidadãos a um ardor pátrio nunca visto? Qual é o sentimento de nação que as Olimpíadas fazem emergir? Desde o atleta do menor e menos habitado país do planeta aos representantes das grandes potências, todos compartilham a emoção de estarem ali, nas provas e nos pódios, a homenagear seu país. 

A identidade nacional 

De que nação estamos falando? Um conjunto de narrativas cívicas   constroem fatos, lutas, batalhas, conquistas, que vão organizando um retrato único de cada país. Começa com a língua, unificadora de norte a sul. No Brasil, os portugueses nos impuseram uma hegemonia linguística, e a pluralidade étnica nos permitiu cruzar mensagens e bagagens. E nossos símbolos são um exemplo das diversas representações culturais que moldam o país.  Os elos, que revivem nas tradições os mitos e as crenças, criam nas pessoas laços de identidade, de pertencimento, de grupo.

Imaginar os estados-nações modernos como comunidades locais foi o ponto de partida para o historiador inglês Benedict Anderson (2011) analisar o surgimento do nacionalismo e das identidades nacionais, que se reforçam num movimento contrário ao da globalização, que uniformiza práticas de significação. De acordo com Anderson, cada nação é assim uma comunidade imaginada.

Como comunidades, as nações possuem laços comuns além do territorial, como a língua nacional, os símbolos, as práticas cotidianas, os processos históricos e a própria colonização, que constroem uma narrativa de unificação de significados. São esses laços que produzem uma identificação nacional.

Anderson afirma também que todas as comunidades nacionais são mais amplas do que a aldeia primordial, e devem ser distinguidas pelo estilo no qual são imaginadas. Nesse sentido, propõe que uma nação seja considerada uma comunidade imaginada, o que proporciona um significado quase religioso de pertença e camaradagem, de ligação com aqueles com os quais se compartilha um determinado lugar simbólico. 

A nação também é imaginada porque os membros, mesmo da menor nação do mundo, poderão nunca conhecer muitos dos seus conterrâneos ou encontrá-los, ou mesmo ouvir falar deles. Ainda assim, cada um deles mantém viva na mente a imagem da sua comunhão. A nação é imaginada como limitada porque mesmo a maior delas, que possua talvez um bilhão de habitantes, ainda assim tem fronteiras, tem finitudes.

Esta concepção de identidade nacional se expande em momentos como os que estamos vivendo, compartilhando dores e perdas devido a pandemia de Covid 19. E também em momentos de alegria, como jogos, competições, derrotas e vitórias, que nos unem e reforçam os laços nacionais que nos identificam. 

Organizadas de quatro em quatro anos, as Olimpíadas são um momento único de congraçamento e de convivência pacífica entre todos os grupos que compõem as nações deste mundo. São feitas com muito suor, luta, gritos e choro, muito choro, e também com respeito a todos os atletas, cada um deles representando um povo, um país, uma nação.

* Leonardo Mota é jornalista e consultor

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