Curso:
dezembro 7, 2021
Artigos Artigos e Entrevistas Noticias

ARTIGO: “Tempos mais democráticos”, por Leonardo Mota

*Por Leonardo Mota

Direita ou esquerda? Até algum tempo atrás, cidadãos do mundo inteiro e também do Brasil eram pressionados a se definir entre esquerda ou direita, muito embora poucos soubessem definir o que cada posição significava. Em países onde esta divisão representava mudanças no sistema político e, sobretudo, no regime de governo, ser de esquerda incluía o apoio a governos ditatoriais. Já ser de direita tinha o duplo sentido de se opor a ditaduras e lutar pela liberdade, assim como ser conservador nos costumes. 

Foram tempos de radicalismo político. Movimentos sociais de esquerda consolidavam as posições, como por exemplo no apoio ao peronismo na Argentina, em que as eleições se dividiam entre candidatos a favor ou contra os seguidores de Peron. Poucos se dedicavam a perguntar: afinal, o que representa ser a favor de Peron, um presidente que já morreu? No Brasil, com a mesma intensidade, os eleitores se dividiam entre siglas mais à esquerda e os opositores da direita.  Mais do que apoiar de fato ideais da esquerda, muitos candidatos visavam apenas serem eleitos usando o nome do padrinho. Um sistema que perdura até os dias de hoje.

A guerra ideológica se intensificou no tempo de guerra fria, com escaramuças entre os governos dos Estados Unidos e da então União Soviética. Grupos mais revolucionários se dividiam no apoio às duas posições. No Brasil, operários e estudantes em geral criaram movimentos comunistas ou socialistas, em partidos políticos que atuavam na clandestinidade, em alguns momentos. O fervor político era intenso e o país viveu a beira do caos.

Os anos se passaram, o radicalismo diminuiu, o foco se voltou para a democratização dos países, com direito a eleições federais e estaduais, e o sonho comunista se acomodou aos novos tempos. Novas leis trabalhistas garantiam os direitos dos trabalhadores, os estudantes mais radicais se renderam ao mercado, em busca de empregos que garantissem o futuro. Isto aconteceu em boa parte do mundo, com o fim do muro de Berlim, seguido pela extinção da União Soviética.  O sonho comunista desmoronava, deixando, porém, seguidores em países como   Venezuela, Cuba, países do leste asiático, como Coréia, que se dividiu em duas. 

A promulgação de Constituições nacionais em muitos países consolidou instrumentos de um estado de bem estar social, garantindo direitos sociais e humanos para toda a população, como no Brasil. Os poderes foram discriminados e ordenados de forma a manter harmonia entre eles. O jogo entre esquerda e direita se tornou vazio ideologicamente, deixando visível a falta de sentido de ocupar um dos lados. Partidos que se diziam comunistas mudaram de nome. Partidos mais à direita se dividiram entre posições republicanas, liberais, sociais e democráticas, tudo simples para o entendimento de todos.

A política radical se civilizou em muitos países e hoje ninguém discute ideais, esquemas de governo, programas sociais. Tudo já está na Constituição. Como afirma o pensador inglês Anthony Giddens no livro Além da esquerda e da direita, as esperanças de Karl Marx de uma humanidade livre perderam o sentido. A globalização substituiu os ideais de direita ou esquerda, mudando os sistemas locais, produzindo novos hábitos e costumes com a velocidade criada pelas novas tecnologias. As populações do planeta estão sendo sacudidas por novos sonhos de consumo como 5G, carros elétricos, trens super velozes, água nas torneiras, alimentos nas panelas. 

Este admirável mundo novo, que começou a ser construído com o fim da guerra fria, deixa pouco espaço para a luta política. O que significa sonhar à direita ou à esquerda? Novos direitos? Mais igualdade? Giddens fala que vivemos numa ordem social pós-tradicional. Uma ordem onde a tradição não desaparece, mas muda de status. Continuaremos a torcer pelos mesmos times de futebol, a exemplo de nossos pais e avós, mas novas formas de comunicação vão criar novas atitudes ou novos comportamentos. Não se briga mais pela ideologia. Não se faz apologia de siglas políticas e nem se apoiam cartas de princípios. O foco se voltou para os personagens da vida pública, os líderes partidários. Em vez de ideologias, busca-se um bom governante.

O surgimento das redes sociais permitiu que as pessoas apoiem ou critiquem abertamente os personagens políticos. Mas os exageros verbais chegam ao nível do ódio tóxico, transformando palavras em armas mortais que, se não atingem fisicamente os prováveis adversários, poluem a democracia. Os debates deixam de lado os bons argumentos em troca da exaustão do palavreado chulo, que alguns chamam de fake news. Nem tudo é mentira, mas são termos que nada constroem. A poluição causada pelos debates mais ácidos precisa ser varrida da vida pública. É preciso resgatar os valores mais tradicionais para conseguir paz e um futuro melhor.

A nova ordem social, pós-tradicional, favorece as posições mais tradicionais, defende a família, os direitos de todos, agita outra vez a bandeira nacional, verde amarela, que esteve ameaçada de perder a cor, afirmando a garantia de liberdade. A mudança acontecerá quando todos perceberem que esquerda ou direita são simples palavras que não refletem a nação brasileira, esta sim, a nossa grande representação do que é a mãe-pátria. 

* Leonardo Mota é jornalista e consultor de comunicação

Publicações Relacionadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fundação Ivete Vargas