Entrevista com Cristiane Brasil

Publicado em FIV Pergunta
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Cristiane Brasil é uma parlamentar de grande força e expressão no Congresso Nacional. Apesar de ter personagens da política na família, Cristiane conta que a aproximação com o Poder Legislativo foi natural "e apaixonante", garante. Atual presidente nacional do PTB, a deputada federal foi eleita em 2014 - na primeira vez em que disputava uma vaga na Câmara - com mais de 80 mil votos no Rio de Janeiro. Em conversa com a Fundação Ivete Vargas, Cristiane fala sobre a carreira política e a família, aborda as oportunidades que a vida colocou no seu caminho e explica como soube aproveitá-las. A presidente da legenda também explica os projetos a serem desenvolvidos pelo PTB no próximo ano. Além disso, Cristiane foi enfática ao estabelecer os princípios que direcionam seu posicionamento nas votações do Congresso. Acompanhe a entrevista:

FIV: Como foi a sua aproximação com a política? Seu pai foi o grande incentivador?

Cristiane Brasil: Eu tinha acabado de me formar na faculdade de Direito e tinha um pequeno escritório. Na mesma época, comecei a advogar no serviço público pela Eletronuclear. Era externa à companhia, mas, seis meses depois, eu passei para a Escola de Magistratura, isso em julho de 2003. Tive que pedir afastamento do trabalho para me dedicar aos estudos. O foco era o concurso para Juiz, mas, em agosto do mesmo ano, meu pai me chamou para assumir a Secretaria Especial do Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida do Rio de Janeiro. Eu não contava que eu fosse me apaixonar pelo fato de comprovar o que eu ouvia, desde cedo, na minha família. Por conta de meu pai ser político, sempre ouvi que a política é uma ferramenta transformadora da sociedade. Fui para o Executivo e me encantei com o segmento idoso. Vi que o envelhecimento populacional é um desafio e um presente da medicina, da tecnologia, para os seres humanos. Nós sempre quisemos viver muito. Agora, através das descobertas médicas, passamos a viver muito mais, mas, na maioria dos casos, sem qualidade de vida e sem apoio de uma estrutura de Estado. E isso é um problema do Brasil. Aí eu entendi que, aliada a minha participação transitória no Executivo nesse tipo de segmento, uma participação no Legislativo seria fundamental.

 

FIV: Foi esse envolvimento que te fez ser tão ativa no PTB, a ponto de, em seu primeiro mandato como vereadora, em 2004, já ter se tornado presidente da legenda no Rio de Janeiro?

Cristiane Brasil: Bom, eu recebi a presidência do PTB do Rio de Janeiro com a obrigação de fazer o partido crescer na cidade. Comecei a me aproximar do movimento de mulheres. Virei presidente nacional do PTB Mulher e fui acumulando missões. Me apaixonei mesmo. Comecei a identificar quais papeis eu poderia ocupar nesse espaço que pudessem ser aglutinadores de novas ideias na política, na participação feminina, e por aí foi crescendo a ponto de eu ter três mandatos como vereadora e de eu ter ficado 7 anos como secretária municipal, gestando e executando as políticas do idoso no Rio de Janeiro. E isso me levou a uma decisão coletiva. E digo isso pois conversei com o grupo político do PTB, passando também pela decisão da minha família, de finalmente assumir uma posição nacional. Primeiro como deputada, por precisar desse mandato para ter legitimidade para pleitear outros espaços aqui em Brasília. Fiquei entre os 14 deputados eleitos mais bem votados do estado, o que, para primeira eleição, já é um grande resultado. Com isso me cacifei para ser presidente nacional do partido e ver o meu trabalho crescer. Eu tive a oportunidade de delegar os outros papeis que eu também ocupava e ver que eu deixei uma semente que se desenvolveu. E, aqui em Brasília, tem muita coisa boa que eu posso fazer para a política, para as pessoas e para toda a sociedade. E é esse o papel que eu quero desempenhar.

 

FIV: A cada conquista, a senhora vive um recomeço. Como é lidar com tanta novidade, e de maneira tão rápida como aconteceu?

Cristiane Brasil: Minha mãe sempre falou isso para mim e eu nunca tinha entendido. Ela dizia que a cada ano que ela vivia, a cada descoberta, parecia que ela tirava uma cortina da frente dos olhos dela e passava a enxergar o mundo com mais nitidez. Que o passar dos anos, e o trabalho desenvolvido, fazia com que ela tivesse novas percepções e novos aprendizados. O que é fantástico. Esse é um dos maiores objetivos do ser humano.

 

FIV: E ao assumir a presidência nacional do partido?

Cristiane Brasil: Começando a andar por aqui, a me preparar para a candidatura nacional, eu comecei a perceber que aqui era um lugar de grandes oportunidades e que eu tinha capacidade de fazer a administração nacional do partido. Foi muita conversa, negociação. E culminou com o apoio ao PSDB, que foi todo costurado por mim e mais um grupo de pessoas do partido, mas fui eu que fiz o acordo. E, com isso, cheguei à presidência nacional. Uma nova experiência para mim. A administração partidária requer diversas interlocuções com variados atores e suas especificidades locais. São os presidentes de partido nos estados, é a Fundação, são os deputados federais, os senadores. A interlocução com eles, as expectativas deles em relação ao partido, esse estabelecimento de direitos e de obrigações. Agora eu virei uma grande negociadora, na verdade, e isso tem sido muito desafiador.

FIV: Quais são os planos do PTB para 2016?

Cristiane Brasil: Vamos apresentar nosso Planejamento Estratégico montado, com a priorização e a quantificação, inclusive financeira, de 10 projetos estratégicos. A divulgação do documento vai ser na Convenção de março. Nós vamos reestruturar toda essa lógica de funcionamento, tanto do PTB para dentro, quanto do PTB para a sociedade. Na minha concepção, partido que não entender que não pode virar de costas para os anseios da população, que vai ter que mudar de atitude sim com relaçã a alianças, a relacionamento com empresários, empresas, com o governo, esse tipo de partido vai ser sempre partido satélite. E tende a desaparecer. Porque se você olhar para as grandes potências e países desenvolvidos, eles não tem essa pluralidade partidária que tem aqui no Brasil. Não é possfvel que existam tantas ideologias a serem desenvolvidas aqui. Então, em março, o PTB valida nacionalmente as suas novas regras, e passará a agir de acordo com elas.

 

FIV: A senhora está a frente do combate aos projetos que têm sido aprovados em comissões da Câmara que ferem os direitos das mulheres. Como se dá essa luta?

Cristiane Brasil: Eu tive a felicidade de tomar ciência que o Brasil assinou um tratado internacional, pela Organização das Nações Unidas (ONU), que obriga o país a cumprir algumas metas para os próximos anos. Para nós, no nosso sistema legal, equivalem a obrigações infraconstitucionais. O que isso tem a ver com o projeto que prevê a necessidade de mulheres vítimas de violência sexual realizarem o corpo de delito para ter direito ao atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS)? Isso quer dizer que o Brasil tem que respeitar os direitos reprodutivos das mulheres. Está escrito na nossa Carta Magna. Ela garante à mulher vítima de violência o direito ao aborto legal, à informação, à proteção da sua saúde física e psicológica. Essa mulher foi vítima de um trauma. Ela teve seu corpo violado. Essa mulher tem que ser protegida e não exposta pelo Estado. Para mim, é uma demonstração cabal da inconstitucionalidade desse tipo de iniciativa que não é só desse projeto, mas que permeia em outras pautas conservadoras, puxadas por bancadas mais ligadas a movimentos religiosos e que contrariam a nossa própria Constituição. Essa é uma luta que eu vou até à ONU se precisar. Essa e outras, como a do Estatuto do Nascituro e a do Estatuto da Família. Vou trabalhar para que esses projetos não prosperem.

 

FIV: E como será o enfrentamento em plenário?

Cristiane Brasil: Nada foi mais importante que a mobilização feminina no Brasil. Nada foi mais importante que a reação das mulheres e de grupos feministas Brasil afora, além de manifestações naturais nas redes sociais. Isso virou o voto de muito deputado que poderia, na sua desinformação, votar favorável a essa aberração. Então, as mulheres precisam estar atentas à representação na Câmara, porque são as mulheres que estão aqui, seja ativamente ou cobrando do seu parlamentar, que podem virar voto.

 

FIV: O que a senhora acha da modernização dos canais de comunicação com a sociedade realizada pela Fundação?

Cristiane Brasil: A Fundação tem que assumir a sua função de ser a grande guardiã da história do PTB. E como é que se faz a história de um partido? Se faz por pessoas, personagens. Quem foram os grandes pensadores que, no passado, fizeram os estatutos, fizeram as bandeiras que o PTB defendeu? Quando o partido foi dissolvido, quando o partido voltou a ser aceito democraticamente? Precisamos saber que o PTB foi o primeiro partido a ter um movimento de mulheres de forma oficial. E que tem, portanto, muitas personagens, muitas histórias, muitos projetos de leis, muitos caminhos, muitas informações e contribuições para a sociedade brasileira que merecem ser contadas para as pessoas. Eu penso que isso tem que ser uma plataforma. As pessoas precisam ter acesso a fotos, pesquisas, pronunciamentos, livros, produções acadêmicas dos parlamentares, dos dirigentes, às histórias dos movimentos. Quem foi aquela pessoa? Como ela conseguiu fazer com que a direção do partido se desse conta da importância de ter uma representação feminina ali dentro. Os personagens ainda estão vivos. E os que se foram deixaram memórias. A Fundação tem que avivar essas memórias, tem que mostrar para a sociedade o tamanho da importância dessas contribuições para a história do Brasil.

Última modificação em Quinta, 15 Setembro 2016 17:51
Patrícia Cagni

Nascida em Brasília, formou-se em jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Fez estágios nos jornais "Correio Braziliense" e "O Globo". Atualmente faz a cobertura do Congresso Nacional como repórter de Política do portal Congresso em Foco.

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