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agosto 12, 2022
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ARTIGO: “Era uma vez..”, por Leonardo Mota

* Por Leonardo Mota

Era uma vez…Assim começam os contos de fadas que encantaram as crianças ao longo dos séculos. E assim começou o mais famoso estudo sobre os contos maravilhosos. De autoria do russo Vladimir Propp, o trabalho deu origem aos estudos sobre narrativas, no começo do século 20. Propp examinou as ações de personagens que se assemelhavam entre si nos contos infantis. Analisando estas ações, Propp elaborou uma tese fundamental: “os elementos constantes, permanentes, do conto maravilhoso são as funções dos personagens, funções que formam as partes constituintes básicas do conto”.

Seguindo a trilha aberta por Propp, estudiosos da Linguística em vários países se dedicaram ao estudo das narrativas. No Brasil, um dos trabalhos mais completos foi feito pelo professor Luiz Gonzaga Motta, autor do livro Análise Crítica da Narrativa. Motta afirma que “narrar é uma experiência enraizada na existência humana. É através de narrativas que recobrimos nossas vidas de significação”. Para ele, o grande desafio é perceber como a narrativa reconstrói a realidade, numa atividade mimética que não se limita a copiar, mas a reinventar criativamente o real.

Criatividade. Esta função, que já foi explorada por Propp, tem sido agora exercida por quantos se dedicam a recriar o real, com personagens que parecem saídos de livros de capa e espada, rocambolescos em suas atividades de vendedores fantásticos de milhões de doses de vacina, falsos príncipes em busca de lucros em dólar. No Brasil, vivemos a fase das narrativas que, como nos contos infantis, são maravilhosas, mas sem qualquer vínculo com o real.

A análise das narrativas

Vou me permitir repetir Foucault quando ele afirma que “chegou o dia em que a verdade se deslocou do ato ritualizado para o próprio enunciado”. Vale dizer que a verdade não acompanha o fato, mas é criada pelo relato. Não me refiro às narrativas literárias, abundantes na criação de personagens imaginados, criadores de proezas que nos fazem sonhar, reconstruir realidades muito além do nosso horizonte imediato. As narrativas a que me refiro são factuais e tentam reconstruir situações políticas ou acontecimentos reais de uma forma surpreendentemente criativa.

Refiro-me a relatos que proliferam em redes sociais, e até em jornais ditos sérios, garantindo serem a representação verdadeira dos fatos. São criados por personagens do mundo oficial, que semeiam narrativas eloquentes, detalhistas, com laivos de verdade, mas infelizmente, sem rastros na realidade. Estes relatos fantásticos de encontros que não aconteceram, de vídeos que não aparecem, de telefonemas secretos, estão sendo chamados agora de ‘narrativas’. A palavra virou sinônimo de fake news. De estória inventada. Mas para a grande maioria da população passam por verdadeiras. Nem todos desconfiam das intenções dos narradores de tais relatos fantásticos.

Tais narrativas encontraram um celeiro incrível na CPI da Pandemia, com o surgimento de depoentes que se alternaram contando e recontando inverdades sobre

possíveis vendas fabulosas, que chegavam a casa dos bilhões de dólares. A triste realidade dos relatos impugnava tais mentiras. Algumas empresas jornalísticas, sem outras estórias para contar, produziram manchetes duvidosas e ajudaram a criar um relato fantástico. Muitas vezes desmentido pelos fatos.

O que diria Propp ao ver que seu estudo sobre os contos maravilhosos pôde produzir uma versão tão maliciosa, tão falsa, do que agora se apelida de narrativa. Difícil é também aceitar que narrativas falsas possam nos recobrir de significados inverídicos. Esta tendência ao fantástico narrativo tende a se agravar com o período pré-eleitoral, quando as paixões políticas se exacerbam. Que possamos recuperar o amor à verdade dos acontecimentos acima de qualquer relato.

* Leonardo Mota é jornalista e consultor

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