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agosto 16, 2022
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ARTIGO: “O triste fim da CPI da Pandemia”, por Leonardo Mota

* Por Leonardo Mota

A CPI que investiga ocorrências durante a pandemia está chegando ao fim sem choro nem vela, mas deixando feridas e chamuscando quase todos os que por ela passaram. O palco ainda está armado, pronto para receber os últimos depoentes que, como a maioria, comparecem munidos de habeas corpus e o socorro de um ou dois advogados, além de assessores profissionais. Todos têm na memória a voz de prisão dada a um funcionário de empresa que buscava vender vacinas. Recolhido a uma sala pela policia parlamentar, o infeliz depoente ficou detido até a madrugada.

Cada convocado se armou com algum tipo de defesa: o empresário Carlos Wizard, acusado de participar de um suposto gabinete paralelo do governo, obteve habeas corpus do Supremo Tribunal Federal e decidiu fechar a boca e não informar nem a religião que professa. Outro empresário, Luciano Hang, também acusado de participar do mesmo gabinete, vestiu-se de verde e amarelo e se dispôs a falar sem parar. Foi preciso que o relator da CPI lembrasse aos depoentes que bastava dizer sim ou não. Ninguém precisava explicar nada, mas corria-se o risco de um ‘não’ mal dado comprometer o futuro jurídico do depoente.

Os chefes da CPI, o presidente Omar Aziz, o relator Renan Calheiros e o vice-presidente Randolfe Rodrigues, esqueceram quase sempre que eram senadores e que se encontravam numa dependência do Senado Federal. Os três vestiram uma toga fictícia que cheirava a mofo medieval. Eram inquisidores e usavam diversos artifícios para assustar depoentes, ora ameaçando com prisão, ou desmoralizando aspectos físicos dos pobres coitados, ou ainda acusando-os de assassinos de mortos vítimas da Covid.

Alguns senadores foram muito agressivos e tentavam desmoralizar a todos, como o senador Oto Alencar, da Bahia, perguntando a diferença entre vírus e protozoário, sem esperar a resposta. Outros pediam a palavra para fazer discursos ofensivos ao governo, sem fazer perguntas. Se o depoente tentasse responder era intimado a ficar calado e ouvir as ofensas. Um dos últimos depoentes foi o presidente do PTB de São Paulo, o empresário Otávio Fakhoury. A acusação era a de apoiar fake news. O depoente mostrou documentos da Polícia Federal que o inocentavam de acusações, mas nem foi ouvido. E recebeu a ameaça de ser enquadrado como culpado no relatório final.

Os que não se intimidavam com acusações eram desmoralizados e ganhavam até apelidos. Luciano Hang foi agraciado com o termo de bobo da corte. A médica e oncologista Nise Yamaguchi foi desmoralizada com um aviso: “não acreditem nela”. Funcionários e médicos do Ministério da Saúde foram tratados com desconfiança e desprezados quando tentavam explicar o funcionamento da compra de vacinas. Todos tiveram de dar duas ou mais vezes a mesma resposta para diversos senadores.

Sem resultados

Quanto aos objetivos e esclarecimentos perseguidos pela CPI, houve um enxugamento visível a todos os que acompanharam os trabalhos. A Comissão, com uma maioria de parlamentares de oposição ao governo, focou nas tentativas de enquadrar o presidente Jair Bolsonaro em erros e crimes de menosprezar a pandemia, de patrocinar remédios sem eficácia e de tentar criar um gabinete paralelo. Com o tempo, o foco passou para a tentativa de venda da vacina Covaxin e os esforços de corrupção da empresa contra funcionários do Ministério da Saúde. Também não funcionou.

O grupo de senadores que apoia o governo tentou pautar as compras de respiradores do Consórcio Nordeste, um grupo de governadores do Nordeste que gastaram quase 50 milhões de reais em encomendas de respiradores, remédios e equipamentos de firmas fictícias que nada entregaram. Um tremendo escândalo que a direção da CPI ignorou. Médicos que apoiavam tratamentos precoces chegaram a ir à CPI, mas não foram ouvidos pelo grupo que dirigia os trabalhos.

Outra irregularidade foi a marcação de depoimentos. Elas foram feitas no apartamento do presidente da CPI, senador Omar Aziz, sem a presença de senadores governistas. Da mesma forma, o grupo de oposição se encarregou de pedir quebras de sigilo de telefones, bancários e telemáticos de várias pessoas, entre empresários, políticos, líderes do governo, médicos e funcionários. Não asseguraram sequer o sigilo dos dados, abertos para jornalistas em geral.

A exceção

Todo este relato só foi possível pela transmissão ao vivo dos trabalhos da CPI pela TV-Senado, cujo sinal foi retransmitido por algumas emissoras de TV. Graças à cobertura imparcial, ampla e irrestrita, a transmissão é a prova viva da falência da CPI em descobrir falhas, erros, omissões e negócios feitos durante a pandemia do Coronavírus. Nada foi apurado porque a mesa diretora da CPI, com o apoio de senadores oposicionistas, não pautou os depoimentos certos, desperdiçou o tempo de todos, fez acusações sem fundamentos que servirão para compor um relatório sem consistência.

A TV-Senado é a memória mais precisa do que foi a CPI da Pandemia. A transmissão mostrou que ainda existe espaço para a cobertura jornalística, séria e completa, sem criar narrativas à esquerda e à direita, sem apoiar partidos políticos ou grupos partidários. Este relato mostrou um resumo dos seis meses da Comissão, em que os fatos aqui relatados foram exibidos em toda a sua crueza, o que levou alguns senadores a afirmar que a CPI foi de fato um gabinete do ódio.

* Leonardo Mota é jornalista e consultor de comunicação

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