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dezembro 4, 2022
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ARTIGO: “Política como espetáculo midiático”, por Leonardo Mota

* Por Leonardo Mota

O palco: uma sala perto do corredor que leva ao plenário do Senado Federal. Os atores: um conjunto de cerca de 20 senadores, dos quais 2ou 3 mulheres.

A cenografia: uma mesa de direção dos trabalhos, e uma poltrona especial, destinada a um depoente.

A peça teatral: uma sessão da Comissão de Inquérito do Senado Federal.

Ali acontecem, nos últimos dois meses, apresentações diárias. Elas envolvem dramatização em abundância: depoentes que decidem ficar calados, depoentes que acusam ou respondem a acusações e agressões, testemunhas que falam demais, atores que respondem ao gosto dos senadores. De vez em quando ataques de fúria, de revolta, que geram ordens de prisão. O clima é de confronto entre os personagens.

Para um grupo especial, o espetáculo é perfeito. Filmam, fotografam ou entrevistam os que entram no palco. Este grupo de atores ganha seu pão assistindo ao espetáculo. Dali sairão as manchetes explosivas do dia seguinte ou as edições noturnas dos telejornais. São eles os jornalistas, que registram o show diário, tomam partido e vivem do confronto entre os atores principais.

Os que se levam a sério chamam o show de cobertura política. De há muito este tipo de jornalismo já abandonou as colunas de jornal e vive do espetáculo midiático. Nesse contexto, a política mistura-se com a performance, as eleições são disputas de marketing, políticos são mais atores que ideólogos, todos desempenhando papéis cujo fim é o espetáculo em si. Há momentos em que a mídia se coloca como o herói da estória, aquele que denuncia, acusa, cobra posicionamentos, resultados e busca desmascarar o jogo político. No entanto, sabemos que a maioria das ações, como furo de reportagem, denúncias exclusivas e entrevistas com fontes, são atitudes intencionalmente propositais do veículo de comunicação para sair na frente dos concorrentes e ganhar audiência, vender seu produto. Para isso vale tudo. Manchetes enganosas são mentiras que não resistem a uma leitura mais séria.

Na história do Brasil, a relação entre o jornalismo e a política vem ao encontro de observações de Pierre Bourdieu. De acordo com o pesquisador francês, “o campo jornalístico produz e impõe uma visão inteiramente particular do campo político, que encontra seu princípio na estrutura do campo jornalístico e nos interesses específicos dos jornalistas que aí geram” (BOURDIEU, 1997, p. 133). Para ele, em um universo dominado pelo temor de ser entediante e pela preocupação de divertir a qualquer preço, a política está condenada a aparecer como um assunto ingrato, que se exclui tanto quanto possível dos horários de grande audiência. Um espetáculo pouco excitante e difícil de tratar, que é preciso tornar interessante.

Por isso, Bourdieu defende que os mecanismos usados para chamar atenção da audiência acabam produzindo um efeito global de despolitização ou, mais exatamente, de desencanto com a política. “A busca do divertimento tende, sem que haja necessidade de pretendê-lo explicitamente, a desviar a atenção para um espetáculo (ou escândalo) todas as vezes que a vida política faz surgir uma questão importante, mas de aparência tediosa” (BOURDIEU, 1997, p. 139).

No momento, as sessões sôfregas da CPI cumprem sua função espetaculosa. Até que, em breve, um novo escândalo ou conflito surja no horizonte.

* Leonardo Mota é jornalista e consultor

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